domingo, dezembro 11, 2005

"Vale do Lobo quer imitar o Dubai construindo uma ilha"

"Os responsáveis pelo empreendimento turístico Vale do Lobo - um dos mais atingidos pela erosão na costa algarvia - querem construir uma ilha em frente ao aldeamento. É desta forma que o promotor imobiliário Sander van Gelder, de nacionalidade holandesa, pretende conquistar novos espaços para construir: dentro do mar. A ideia partiu de um ex-secretário de Estado da Pescas e, para o investidor, o Dubai é a referência.
O anúncio deste projecto, tornado público na altura em que decorria em Vilamoura a Taça do Mundo de Golfe, não deixou de ter os seus efeitos promocionais, mas resta saber se não passou de um golpe publicitário.
Segundo o presidente do Vale do Lobo, Sander van Gelder, o investimento mínimo necessário para este projecto ronda os 750 milhões de euros. Quando ao projecto, não passa de ideias vagas. À Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve não chegou até agora qualquer pedido de informação.
A vice-presidente da instituição, Valentina Calixto, mostra-se cautelosa: 'Tenho muitas dúvidas sobre essa ilha, mas não sei em concreto do que se trata, porque não fomos contactados'.
No entanto, chama a atenção para os 'problemas de erosão' que se têm verificado na faixa litoral entre Vilamoura e a praia de Faro, com especial incidência no Forte Novo, em Quarteira, já submerso.
O próprio Vale do Lobo, na faixa mais litoral, encontra-se em risco de ser engolido pelo mar, sendo já visíveis moradias à beira da derrocada e a piscina principal do empreendimento suspensa na falésia.
Os proprietários das vivendas ameaçadas chegaram a reclamar indemnizações a van Gelder, mas este declinou responsabilidades, alegando que as moradias tinham sido licenciadas pelas entidades públicas. Logo, se alguém tivesse de pagar, seria o Estado português.
E a verdade é que, em 1998, o Governo contribuiu com 1,5 milhões de euros para a recarga artificial da praia - retirando ao mar cerca de 700 mil metros cúbicos de areia. Dois anos depois, o mar já tinha voltado a recuperar a maior parte dos sedimentos, continuando as casas em perigo.
Não obstante essa evidência, os campos de golfe prolongaram-se até à crista das arribas e um novo aldeamento, o Oceano Clube, em construção, está a erguer casas até à linha da costa. Em princípio, tal não seria permitido, mas o Plano de Ordenamento da Orla Costeira reconheceu 'direitos adquiridos' ao promotor imobiliário. Também conhecido por Vale do Lobo II, trata-se de um empreendimento de 122 lotes a 120 metros da arriba, aprovado em 1995 como 'projecto estruturante'.

Erosão cresce de forma imparável
Um professor da Universidade do Algarve que estuda o processo de evolução da costa algarvia há mais de 20 anos, Alveirinho Dias, lembra que os perfis da direcção-geral de portos 'mostram à evidência' a erosão no trecho entre Vilamoura e a praia de Faro.
O Vale do Lobo, situado mais ou menos a meio do percurso, é a zona que mais tem sofrido com o avanço do mar desde a primeira metade do século XX. O investigador chama a atenção para o facto de, já nos anos 60, 'várias entidades, entre as quais a Direcção-Geral de Portos, terem dado parecer negativo à construção do empreendimento'.
A construção de uma ilha frente a Vale do Lobo, na opinião de Alveirinho Dias, formaria um tômbolo que, mais tarde ou mais cedo, ligaria a ilha ao continente, dando origem a um grande esporão e impedindo a passagem das areias de um lado para outro. Os maiores reflexos dessa intervenção 'iriam verificar-se na zona nascente', à semelhança do que aconteceu com a construção dos esporões de Quarteira e Vilamoura.
Já no que diz respeito à alimentação artificial da praia, o especialista não vê problemas nisso: 'Trata-se de uma prática vulgar nos Estados Unidos, paga pelos hotéis, para garantir a manutenção da praia para os seus clientes'.

Área da ilha por definir
Sander van Gelder diz que a área da ilha, a ser construída no domínio público marítimo, não está ainda totalmente definida. 'Ainda estamos a desenvolver vários contactos para a finalização do grande projecto orientador, que será a base decisória do projecto final'.
Há cerca de duas semanas, avançou ao Jornal do Algarve a intenção de construir hotéis, restaurantes subaquáticos, um casino, infra-estruturas desportivas e um pequeno ancoradouro. O acesso seria de barco, por túnel subaquático e por teleférico. A inspiração ocorreu, disse, após algumas viagens que fez ao Dubai.
A matriz do projecto pertence a José Carlos Viana, um engenheiro mecânico aeronáutico que, em 1984, desenvolveu estudos para a construção de uma ilha localizada a cerca de 250 metros da praia de Vale do Lobo. No currículo deste técnico destaca-se o exercício do cargo de secretário de Estado da Marinha Mercante entre Julho de 1974 e Março de 1975, tendo regressado à governação como secretário de Estado das Pescas no período de 1981-82.
José Carlos Viana diz que, antes de apresentar o projecto a Vale do Lobo, estudou os 'processos construtivos e as origens dos materiais de enchimento, de forma a poderem calcular-se os custos e a viabilidade do empreendimento'.
Sander van Gelder, por seu lado, acha que a ilha não constituirá apenas um negócio: servirá também para 'proteger a costa entre Vale do Lobo e Faro'. (Idálio Revez - Público, 11/12/2005)