domingo, março 05, 2006

"Turistas nórdicos viram-se para o interior do Baixo Alentejo"

"Depois do Algarve e da Andaluzia, onde, ao longo das últimas duas décadas, se assistiu à fixação de dezenas de milhar de cidadãos ingleses, regista-se neste momento um interesse crescente nos países nórdicos e do centro da Europa pelo Baixo Alentejo. O fenómeno está associado à apetência dos escandinavos pelas regiões de clima mediterrânico. É o ascenso do chamado turismo residencial, que poderá trazer para o Baixo Alentejo, até 2015, quase 100 mil novos residentes fixos e temporários.
Para corresponder às inúmeras solicitações que chegam do centro e norte da Europa, já se encontram em fase de elaboração meia dúzia de grandes projectos para os concelhos de Ourique, Almodôvar, Castro Verde e Mértola que, no seu conjunto, somam dezenas de milhar de camas, e seis campos de golfe.
As propostas de arquitectura apresentam uma tipologia nova em regime de vivendas isoladas ou nucleadas, 'opção que ainda não foi discutida', refere Vítor Silva, presidente da Região de Turismo Planície Dourada (RTPD). O responsável regional considera, porém, que este tipo de turismo 'vai deixar muito pouco' nos concelhos onde for instalado. 'Para além dos seus promotores não serem da região, até a mão de obra necessária terá de vir de fora', afirma.
O turismo residencial aproveita essencialmente 'as características do clima mediterrânico, as boas condições de segurança e a grande hospitalidade dos alentejanos' refere o presidente da RTPD. A fácil acessibilidade rodoviária e aérea é outra das vantagens que está a capitalizar para o distrito de Beja as expectativas de quem busca um espaço privilegiado pelas condições climatéricas. O projecto do aeroporto de Beja recebeu, aliás, um novo impulso no sentido da sua concretização, depois de se saber do inusitado interesse revelado, sobretudo pelos nórdicos, em escolher a região alentejana para viver quando o inverno chega à península escandinava.

Recursos humanos qualificados são um problema
Neste momento, encontra-se em fase de arranque junto à albufeira da barragem da Rocha, no concelho de Ourique, um complexo turístico que ocupará cerca de 400 hectares e vai custar 250 milhões de euros. Este investimento vai ser aplicado na construção de quatro aldeamentos turísticos que, no seu conjunto, terão uma capacidade para 2000 camas, de dois hotéis de cinco estrelas com 450 camas cada, de um aparthotel, de uma 'aldeia tradicional alentejana' e de dois campos de golfe com 18 buracos.
Na noite da passada sexta feira, por outro lado, foi analisada na Assembleia Municipal de Castro Verde uma proposta que visa a instalação de um empreendimento turístico que se estende por uma área calculada em 600 hectares, na Herdade da Cavadela, neste concelho alentejano. O projecto, que vai entrar na fase de elaboração do plano de pormenor, prevê a instalação de 2.000 unidades de alojamento com capacidade para 5000 camas.
E o número de unidades turísticas previstas para corresponder à procura nórdica de que agora se fala, as duas citadas e mais três ou quatro em fase de estudo prévio, não toma em linha de conta os projectos já aprovados para o litoral alentejano. É ponto assente que só para a península de Tróia está aprovada a instalação de 12 mil camas até 2010. E entre Tróia e Sines o seu número sobe para 36 mil. 'Isto sem contar com os grandes empreendimentos, previstos para Alqueva' acentua o presidente da RTPD, chamando a atenção para o grave problema estrutural que assenta na escassez de recursos humanos.
'O Alentejo não dispõe de mão de obra nem em quantidade nem em qualidade para responder a todos estes desafios. E a pouca que temos não é requalificável' avisa Vítor Silva. Os recursos humanos e a sua formação constituem 'o primeiro e incontornável problema' corrobora Andrade Santos, presidente da Região de Turismo de Évora (RTE). A somar a este ponto fraco, subiste a falta de escolas de hotelaria e uma substancial redução no financiamento comunitário, que tem sido canalizado para o sector, através da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo. A partir do ano 2000 esses apoios 'caíram para níveis inferiores aos que se verificavam nos anos 90', afirma, com preocupação, o presidente da RTE.

Pequenos investidores descontentes.
À medida que decorre o debate sobre as alterações a introduzir ao Plano de Ordenamento das Albufeiras de Alqueva e de Pedrogão (POAAP) e se aproxima o momento das grandes decisões relativamente aos empreendimentos turísticos em redor de Alqueva, crescem os sinais de descontentamento entre os pequenos investidores do sector. Vítor Silva, presidente da Região de Turismo Planície Dourada (RTPD), admite que as opções de investimento da administração central e também das autarquias da zona do regolfo de Alqueva, vão no sentido de 'fazer passar os grandes empreendimentos turísticos, enquanto os pequenos ficam na gaveta'.
E é precisamente do pequeno turismo que partem os primeiros sinais do descontentamento, que se tornou visível numa reunião recentemente efectuada entre as regiões de turismo do Alentejo e os pequenos empresários. As suas propostas 'não podem ser enquadradas numa espécie de segunda divisão das prioridades', salienta Vítor Silva, frisando que a RTPD 'não quer em Alqueva só os grandes grupos de investidores com projectos considerados de interesse nacional'.
A mesma opinião é partilhada por Andrade Santos, presidente da Região de Turismo de Évora (RTE). 'Há que compatibilizar a existência e funcionamento de grandes empreendimentos com a rede de micro, pequenas e médias empresas', defende o presidente da RTE, embora reconheça que 'no Alentejo está-se a assistir a uma nova fase marcada pelo surgimento de grandes empreendimentos'. Em torno de Alqueva e no Baixo Alentejo perspectivam-se investimentos estruturantes 'de grande ambição' adianta Andrade Santos.
Descansado em relação a esta matéria está Santinha Lopes, presidente de Câmara de Mourão, cujo concelho integra a zona do regolfo de Alqueva, segundo o qual 'todos os projectos [grandes e epequenos] têm sido tratados de igual modo', De acordo com este autarca siocialista, os grandes projectos acabam, aliás, por ser aqueles que se vêem rodeados por maiores complicações. Santinha Lopes salienta que o seu concelho 'não está à venda às grandes imobiliárias'.
Por seu turno Norberto Patinha (PS), presidente da Câmara de Portel, cujo concelho também beneficia das vantagens turísticas da grande albufeira, diz que em redor de Alqueva 'há lugar para tudo', desde que se respeitem as características ambientais e patrimoniais do concelho. A este propósito, o autarca diz que 'gostava de não ser acusado, no futuro, de ter estragado [com as suas decisões] o meio ambiente'." (Carlos Dias - Público, 05/03/2006)