segunda-feira, novembro 28, 2005

"Taxa proposta por Chirac nos bilhetes de avião não convence"

"A França vai criar uma taxa de solidariedade internacional nos bilhetes de avião. Os preços dos bilhetes serão acrescidos de um a 40 euros, dependendo se se viaja na Europa ou no resto do mundo, e em classe económica ou em primeira classe. Esta nova tributação será entregue aos programas de luta contra a sida e outras pandemias que afectam particularmente os países emergentes. Mas a medida suscita celeuma.
A proposta desta nova taxa foi feita em Julho, pelo Presidente da República francesa, Jacques Chirac, aos seus homólogos na reunião do G8. O Presidente francês pensava ter encontrado uma ideia capaz de suscitar reacções entusiásticas de solidariedade para com os países emergentes.
Contudo, o Presidente americano, George W. Bush, não quer ouvir a palavra 'taxa'. A Alemanha sente que não é o momento de aprovar um novo imposto, por muito limitado que seja. Na Grã-Bretanha, o primeiro-ministro Tony Blair deixou-se seduzir numa primeira fase, mas ao ver que raros eram os que o seguiam, mostra-se agora mais evasivo. Só o Chile e o Brasil apoiam a proposta sem reservas.
Como Jacques Chirac não quer abdicar de um ideia que lhe parece dar um primeiro passo para ajudar os países do sul, o Governo francês decidiu avançar com a aplicação da taxa. A partir de Julho, cada bilhete comprado em classe económica para uma viagem dentro da UE será acrescido de um euro e de dez euros fora do espaço comunitário. A taxa será multiplicada por quatro em primeira classe e em classe business.
O novo imposto deve render 210 milhões de euros por ano, segundo o Ministério da Economia francês. A 'França quer dar o exemplo já em 2006, a fim de provocar um efeito de imitação o mais vasto possível', diz o Ministério.
Chirac tem, no entanto, ainda de contar com uma polémica interna. A maioria dos profissionais do transporte aéreo mostra-se hostil a este projecto. Numa carta aberta publicada a meio da semana, a Federação Nacional da Aviação Mercantil qualifica a nova taxa de 'injusta', 'ineficaz' e 'potencialmente destruidora de empregos', evocando a probabilidade de a França perder entre 600 mil e um milhão de passageiros, o que implicaria uma supressão de três a quatro mil postos de trabalho. O presidente do grupo Air France-KLM, Jean-Cyrill Spinetta, manifestou sérias 'reservas' e 'reticências', mesmo se diz aderir ao 'objectivo de solidariedade Norte-Sul'.
Chirac tentou serenar os ânimos, garantindo que a taxa dos bilhetes de avião foi concebida 'de forma a não afectar a competitividade nos aeroportos franceses, nem o emprego no sector aeronáutico'.
Mas também há quem o apoie. Fabien Bourdier, presidente do grupo de turismo on-line Expedia.fr, afirma: 'Toda a gente sabe que a insegurança é muito má para o turismo e a diferença do nível de vida entre o Norte e o Sul é um dos principais factores de insegurança. É por isso que considero que esta taxa de solidariedade é o caminho certo. Estou aterrado com as reacções negativas do profissionais do turismo, porque, a prazo, esta taxa tem um interesse económico para eles - se não exceder quatro a cinco euros por bilhete.'." (Ana Navarro Pedro - Público, 28/11/2005)